🇧🇷 Brazilian Portuguese · A1–B1 · Chapter 28 of 36

Capítulo 28: O mundo ao contrário

The Alienist — tap any word for its meaning, or tap a sentence to see it in English.

Capítulo 28: O mundo ao contrário

De manhã, Bacamarte mandou uma carta nova à Câmara. A doutrina agora era outra, e a vila ia ouvir.

Se quatro quintos estivessem doentes, a doença seria a regra. Se a razão fosse rara, a Casa Verde internaria o raro. Se o normal fosse o desequilíbrio, o equilíbrio seria a doença. Se Bacamarte mudasse a doutrina, a Câmara aprovaria sem luta.

Os equilibrados eram a anomalia da vila. A nova doutrina era limpa e monstruosa ao mesmo tempo. Soltar os internados. Internar os perfeitos.

Os vereadores leram a carta com a boca aberta. Alguns queriam rir; outros queriam chorar. Ninguém tinha outra ciência para pôr no lugar. —Se o doutor diz, a Câmara aprova —disse um vereador—. Eles aprovaram. O que mais podiam fazer?

A resposta foi curta, feliz e um pouco assustada. Bacamarte leu a aprovação sem sorrir. Se a Câmara tivesse dito não, ele continuaria mesmo assim. A ciência, aliás, não pedia voto; pedia portas.

Ele ordenou a preparação da grande mudança. Amanhã as portas da Casa Verde iam abrir para fora. E depois, as mesmas portas iam abrir para dentro. Os perfeitos ainda não sabiam que eram perfeitos.

Padre Lopes sentiu um frio nas virtudes dele. Crispim Soares praticou um atraso maior na mesma tarde. Dona Evarista olhou os vestidos e não soube o que pensar. Itaguaí ia mudar de cabeça para baixo.

Bacamarte guardou a carta aprovada no livro dos nomes. O mundo ao contrário tinha, afinal, uma regra clara. Amanhã a Casa Verde ia devolver a vila a si mesma.